Realidade: A cada dez jovens que se suicidam no Brasil, seis são negros

Foto: Divulgação/IB

A cada dez jovens que se suicidam no Brasil, seis são negros. Esse é um dado revelado na cartilha produzida pela Universidade de Brasília e Ministério da Saúde. De 2012 a 2016, a proporção de suicídios entre negros aumentou em comparação às demais raças, subindo de 53,3% em 2012 para 55,4% em 2016.

Os números podem ser justificados, segundo o estudo, principalmente pelo preconceito e discriminação racial e racismo institucional. Muitas vezes as queixas raciais são subestimadas ou individualizadas, tratada como algo de pouca importância e pontual e culpando quem sofre o preconceito.  De acordo com o estudo, o estigma em torno do suicídio, aliados a elementos estruturantes como o racismo estão relacionados e contribuem para o silenciamento em torno da questão, além das dificuldades de se falar abertamente sobre o assunto.
Camila de Jesus é psicóloga do Hospital Prohope e vê o racismo como um ideal dizimador: “Ele vai podando a existência do sujeito desde às primeiras experiências no colégio onde meninas negras são vistas como pouco agradáveis e até mesmo pares menos desejáveis para exercer atividades simples como ser escolhida para dançar em uma quadrilha junina, e isso é perpetuado nas faculdades, no ambiente de trabalho e até mesmo em momentos de lazer”. Esse fato, esclarece a profissional, pode reforçar no indivíduo o sentimento de desvalorização, de não pertencimento. A falta de representatividade também gera consequências, de acordo com Camila: “Como o sujeito se sente ao olhar para um lugar de chefia e não se reconhecer, porém ao assistir aos jornais  vê seus pares sendo assassinados porque confundiram uma esquadrilha de janela com uma arma? O racismo é dizimador nesse sentido: ele dificulta que o sujeito negro cresça em suas potencialidades. Para o racismo existir, ele precisa ser exercido por não negros, visto que o racismo é a ideologia que impõe uma raça como superior a outra. Logo, isso não é um problema apenas dos negros. É um problema coletivo”.
Entre as causas associadas ao suicídio em negros apontadas pelo estudo, estão o que se conhece como “o não lugar”, a ausência de sentimento de pertença, sentimento de inferioridade, rejeição, negligência, maus tratos, abuso, violência, inadequação, inadaptação, sentimento de incapacidade, solidão e isolamento social. O desemprego, a discriminação, a segregação e a falta de acesso aos cuidados de saúde são determinantes sociais relacionados ao suicídio entre os jovens negros. A psicóloga fala que a manutenção de estereótipos ainda influencia a saúde mental da população negra: “Durante toda sua vida o negro foi obrigado a seguir estereótipos como: de ter mais força corpórea, logo aguenta mais dor; de ser colocado em um lugar de menor valor, de ser pouco inteligente, etc. Foram quase quatro séculos de escravidão, então hoje nossa sociedade ainda sofre influência desse modelo escravagista, de que uma classe era superior a outra por conta de características fenotípicas. Como esse indivíduo pode desenvolver autoconfiança se quando ele entra nos supermercados ele é perseguido pelo segurança ou até mesmo confundido com um vendedor do local, ainda que não esteja fardado? Esses fatores vem causando sofrimento imenso na psiquê dos sujeitos que se veem deslocados da sociedade, que se veem obrigatoriamente marginalizados e rejeitados sem ao menos direito de defesa”.
Camila fala que, ao juntar esses fatores com a baixa expectativa de vida do jovem negro (alerta que aproximadamente 70% dos jovens assassinados são pretos ou pardos) além das questões que envolvem a dificuldade e obter um emprego digno, a vulnerabilidade social e questões econômicas, se forma um combo que pode abrir uma brecha para que o jovem entenda o suicídio como uma saída.

Ainda de acordo com a cartilha, os determinantes sociais e principalmente aqueles relacionados ao acesso e permanência na educação influenciam adolescentes e jovens negros sobre suas perspectivas em relação à vida. O sentimento de pertencimento a uma comunidade funciona como um amortecedor contra os efeitos negativos da solidão e da baixa aceitação. Esse suporte social é entendido como relações próximas e de afeto entre as pessoas, que atua como um fator de proteção e promoção à saúde. “O movimento de aquilombamento, que é a ação de fortalecimento de vínculos entre pessoas negras e vem se mostrando poderoso no sentido de desenvolver sentimento de pertença naqueles indivíduos que se veem representado nos seus colegas e conseguem trocar o afeto que lhe foi negado durante sua vida com sujeitos não negros. Esse movimento é comumente visto hoje em grupos psicoterapêuticos para pessoas negras, em terreiros de candomblé, terreiros de umbanda, em ligas acadêmicas que estudam questões raciais nas faculdades ou até mesmo nos grupos de amizade dos colégios e/ou ambientes de trabalho”, defende a psicóloga.

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